"Lugar da existência indivisível.
Qual é a linha que separa a parte de dentro da de fora, o estampido das rodas do uivo dos lobos?"

_In: Ítalo Calvino; As Cidades Invisíveis.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

l u t o


a dolorosa consciência de que às vezes as coisas são só
o que são
nada
além

às vezes acabam mesmo antes de terem um começo
marcado
às vezes o começo era só o silêncio, mesmo

tem coisa que nasce do silêncio
e morre em silêncio
e a gente mal nota

tem coisa que nem nasce, morre na semente
e essa coisa também é expressão da vida

das muitas vidas que temos e vivemos
e geramos e
às vezes nem percebemos

porque viver também é dis|trair-se

e é assim
frágil
q u e b r á v e l

meio
sem fim

e ainda assim vale a pena !








_Aline, 30/06/2017.
| para o Tha e para as mães sobreviventes
que nos ajudaram nessa travessia para formarmos |



**Escrito a partir do trabalho realizado em estágio junto a um grupo de mães que perderam filhos.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

pretérito(im)perfeito


o engodo de querer reviver o não
vivido
é que repete-se aí
em ato
o equívoco de estar presente
na ausência

no momento que se vive
só se estará
no futuro
quando este também já terá sido
passado

e aí sim
será possível revivê-lo
no sem fim
do tempo virtual

numa infindável conjugal ação do que poderia ter sido
e não foi



Fotografia: Marc Krüger























_Aline, 28/06/2017.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Striptease


fizemos como mais fazemos: desnudamos-nos
, sem que de nós caísse uma única peça de roupa sequer

ardíamos
, congelados em corpos trancados

tentamos dormir
mas não havia lugar na cama. tampouco no sono
agonizei silenciosamente, perdida no silêncio
dele
contida em meu próprio corpo

depois
, feito criança eufórica, vomitei
ao breve contato com sua pele. foi preciso recuar

desistir. voltar às trancas

até ser tocada pelo som da sua voz
suada
misturada à memória vívida da sua língua percorrendo a minha

.
o dia já ia claro. era preciso acordar.



























_Aline, 21/06/2017.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Corpo colapso


rinite
sinusite
gastrite
congestão nasal

excesso de ar que vira asfixia

peito fechado
garganta contraída

coceira generalizada

febre

olhos apertados
respiração branquial

.
.


.

¿ para que tantas defesas em um corpo só


Fotografia: Diego Masarotti






_Aline, 16/06/2017.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Tosse:


vento que irrompe do peito cheio
e atravessa a garganta
ainda inflamada

tentando jogar para fora o que persiste da vida
mal curada

quase atira o próprio peito
com a força do seu ímpeto

em vão
não tem cura
a vida  nem o peito

a tosse, talvez



Fotografia: Jane Evelyn Atwood




_Aline, 13/06/2017.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

Impasses


eu querendo abrir
espaços
questões discussões

você ocupado
em ter
acertos certezas segurança

emp.erramos

não fluímos


d e r r a m a m o s 

















_Aline, 26/05/2017.

terça-feira, 11 de abril de 2017

de_cisão:


é quando a gente
se vê em vias
                             de partir  |-se

bifurcado
dividido

tentando a todo custo reencontrar a unidade
| mas não dá mais




Fotografia: Marko Ganzaro



_Aline, 11/04/2017.




segunda-feira, 6 de março de 2017

Palavras extraviadas


Algumas palavras são como cartas extraviadas, não encontram o caminho de chegada ao seu destinatário. E assim como estas cartas, que entulham de papéis perdidos as caixas de correios, também acontece com as palavras extraviadas, estas entulham o dentro da gente obstruindo o fluxo da vida. A gente passa a viver meio que engasgado, nem cheio nem vazio, nem vivo nem morto. 

Algumas destas palavras são pesadas de dor, sangram sem alívio. Mas, há também as que guardam outros sentimentos, bons, e que mesmo interditados são como alento, raio de sol em dias nublados. E é especialmente a estas que quero dar lugar, agora, nesta carta que ainda não conseguiu chegar ao seu destinatário. 

Ao destinatário: 

Por pelo menos duas vezes você indagou meu sentimento por você, quis saber se o amo, se o que sinto é amor. E em ambas as situações optei por não nomear este sentimento, tirei o corpo fora. Em parte por medo de matá-lo (e de morrer junto), mas muito por não saber claramente que nome dar. É difícil descrever a água enquanto se está mergulhado nela, o que a gente consegue fazer é sentir o toque dos seus movimentos e registrá-lo na memória. 

Mas, de uns tempos pra cá, alguma coisa mudou e algo em mim parece requerer sua dignidade de existente. Parece ser o meu sentir reivindicando seu direito de existir, de ter um corpo, uma palavra que o abarque, ainda que não completamente; Um lugar, ainda que imperfeito. Chega de tentar matar (e de morrer). Preciso arriscar deixar viver...

Então, quero que saiba: o nome pode ter várias letras e combinações, não cabe numa palavra só. Mas dele consigo traduzir uma espécie de traço genético, herdado de quando teve a forma de paixãozinha e se fez cultivar num vaso de flor, ou mesmo dos tropeços e olhares desastrados. 

Dia destes, aprendi que sentimento vem de sentimento. Ou seja, não existe nem se assina em uma via só. Com isso, lembrei-me de você dizendo que me gostou primeiro... Ok. Dessa corrida não saberia dizer quem chegou na frente, mas reconheço que você foi quem soube antes. Eu adiei o saber, na tentativa de evitar que acabasse. Eu sei, é uma matemática meio atrapalhada, mas era a que meu medo sabia calcular. Acho que não deu certo. Na hora da prova a conta não fechou. 

Agora, entendi: se algo se inscreveu aqui, você pode ler daí, e já leu (que eu sei). O que faltava, mesmo, era que eu também lesse e reescrevesse.  Pois bem, aqui está o registro, feito e assinado por mim. 


_Aline /B., 
Sjdr, 06/03/2017.

sábado, 4 de março de 2017

SerTão:


é como estar a atravessar um rio de intensa correnteza
a gente se afoga antes _da travessia
no medo de não conseguir tocar a outr
a
margem




Fotografia: Robin Isely




_Aline, 04/03/2017.





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

o amor no divã


do que vivem os amantes?

de amor,
responderia o incauto

mas o que é amor? _ questiona a amante
o que ama um amante? _ pergunta

sem resposta, arrisca-se:

"seria precisamente aquilo que as palavras não nomeiam
mas que possibilitam (?)

o que acontece quando o telefone toca e ouço a voz do outro lado da linha (?)
não é o que ela diz (ela pode dizer qualquer coisa)
não é como diz (às vezes nem diz)

é algo que se dá no inesperado
intervalo
entre a fala (dele) e a (minha) escuta

(suspiro)

algo além do som
além do tom
além do nome

parece mágica.
parece mentira.

mas não é
e é."

Será?
.





_Aline, 10/02/2017.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Meio sem cabimento


somos assim

sem lugar
sem poder
sem saber

sem contorno
sem começo
sem fim

somos (e)feitos
de meios

meios termos

meio falar
meio olhar
meio estar

meio querer
meio se ver
meio (se) (re) partir

somos isso

Isso
que ainda não tem nome
nem corpo

mas que às vezes pulsa
e, às vezes, dói


[ e não cabe.


Cena do filme A Imigrante, James Gray EUA, 2013.





_Aline, 25/01/2017.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Linguística


Diamante:

Objeto multifacetado
condensador
de desejos

Ter
Poder
(perder?)


*
Desejo:

O medo
(dos amantes)


*
Diamante:

forma triangular estável

recurso semântico
de amante(s).






_Aline,
SP, 13dez2016.



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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Suspiro :


é quando vem o amor
e faz da vida clara

em neve. com açúcar





 ____ em fogo brando

Fotografia:  Burt Glinn






















_Aline, 03/11/2016.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Corpo


Respirar não é o mesmo que viver
Perder o ar não é morrer

Ter pés não impulsiona a andar
Ter um corpo não garante o caminhar
                                                  [ a morte pode habitar um corpo são

Ter todos os órgãos
não é o mesmo que ser um corpo vivo

Ter um corpo não inclui ter lugar
Algumas vezes o corpo é pura falta
                                                                          [ de encontrar 

Há corpos inteiros q u e b r a d o s
Há corpos quebrados inteiros

O corpo não determina

                                       [ mas há corpo que começa e não termina


















* Inspirado no filme "Ferrugem e Osso", França/Bélgica, 2012. 

_Aline, 27/09/2016.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A outra barata


havia uma barata (abusada) tomando banho comigo
escondia-se atrás do puxador de água
mas moveu-se, meio afogada, quando tirei-o do lugar

não estava morta
nem viva o suficiente para sair correndo
talvez estivesse um pouco atolada na água
_que não era suficiente para um nado
ou talvez tenha simplesmente fingido estar meio morta
_na expectativa de um momento menos arriscado para fugir

não sei, não sei...

por via das dúvidas, matei-a
com aerossol
mas agora hesito na remoção do corpo
mal consigo entrar no banheiro
fito-a da porta. meu corpo desorganiza-se
ante ao seu corpo morto
recuo

tento convencer-me de que é apenas uma barata
morta
inofensiva
mas sua vulgaridade me repele
as pernas bambeiam
o estômago contorce-se
a cabeça, que já doía, lateja

como pode uma barata, morta, ter tanta força?


Fotografia: Ruth Bernhard 
















_Aline, 01/09/2016.